Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jornaldodiaadia

jornaldodiaadia

‘Satisfaction’ faz 50 anos: o segredo da música que transformou os Stones (Greg Kot é crítico de música do jornal Chicago Tribune)

150608191341_rolling_stones_624x351_rex

Esta música já está no ar há tanto tempo – 50 anos completados no último sábado, para ser mais exato – que ela parece ser omnipresente.

Emissoras de rádio do mundo inteiro ainda a tocam com frequência, e é quase automático cantar e dançar ao som dela.

(I Can’t Get No) Satisfaction acabou por se tornar um marco na carreira dos Rolling Stones e da cultura que eles ajudaram a formar. Um sucesso que, ao mesmo tempo, definiu uma era e também transcendeu o seu tempo.

Os Stones ainda tocam a canção nos seus concertos em parte para agradar os fãs. "Essa foi a música que realmente fez de nós os Rolling Stones", disse Mick Jagger certa vez à revista Rolling Stone. "Ela nos fez deixar de ser uma banda qualquer para nos tornarmos uma banda gigantesca, monstruosa."

O que a torna tão especial, mesmo dentre a enorme coleção de sucessos dos Stones? E por que tantos artistas a regravaram, de Aretha Franklin a Britney Spears?

Tudo começou com um sonho que Keith Richards teve durante uma tourné dos Stones pelos Estados Unidos em 1965. Ele acordou num quarto de hotel na Flórida e notou que, no meio da noite, se tinha levantado e gravado um riff acústico e um refrão numa cassete, deixada na sua mesa de cabeceira.

Alguns dias depois, Mick Jagger terminou os versos, e a banda partiu para gravar a faixa. Primeiro, uma versão acústica, nos Chess Studios, em Chicago, e depois, uma versão elétrica, na RCA, em Hollywood.

Richards conta ter imaginado o riff original a ser executado por instrumentos de metais – assim como Dancing in the Street, de Martha and the Vandellas – e queria um som mais duro. Um pedal Gibson trazido pelo faz-tudo dos Stones, Ian Stewart, foi a solução.

A guitarra distorcida de Richards explodiu pelos altifalantes e Jagger transformou cada sílaba numa acusação.

Nas suas palavras escorriam veneno, sarcasmo e sexo. Era ao mesmo tempo um ataque à sociedade heterossexual e aos seus valores consumistas, e uma expressão sem censura dos desejos mais básicos de um adolescente que se transforma em homem.

A cantora Aretha Franklin relançou a canção nas paradas ao gravá-la em 1968

Os Stones, que até então eram conhecidos por serem puristas do blues, mas que começavam a compor as suas próprias canções, fizeram um sucesso instantâneo. Algumas semanas depois do seu lançamento, Satisfaction chegava ao topo dos Tops nos Estados Unidos e permaneceria nas primeiras posições por mais de três meses, dominando o verão de 1965.

É verdade que as insinuações sexuais da música deixaram alguns radialistas nervosos, mas isso não prejudicou o seu desempenho entre o público. O desejo de Jagger de "make some girl" foi censurado pelo menos numa grande emissora de rádio de Nova York e em programas de TV de sucesso como Shinding! e The Ed Sullivan Show.

Richards estava envergonhado porque achava que a canção não estava finalizada. Para ele, as trompas ainda tinham que tocar o riff que viria a se tornar imortal com a sua guitarra. Mas a reação dos fãs mostrou que ele estava errado.

O guitarrista também falou sobre o papel de Satisfaction na construção dos Rolling Stones. "Não discuto a função que a canção teve como um marco para os Stones", disse ele na sua autobiografia. "Mas nem tudo é feito apenas para agradar o seu próprio gosto."

Ao menos para os integrantes da banda, o que realmente formou a reputação da canção foi o fato de ela ter sido regravada – e muito bem regravada – por alguns dos seus heróis.

Como se tivesse lido a mente de Richards, Otis Redding colocou trompetes para tocar o riff matador na sua versão de Satisfaction.

No entanto, assim como muitos ouvintes, ele não conseguiu decifrar algumas das palavras de Jagger, então acrescentou as suas próprias. Não importa. A lenda do soul fez uma ponte com uma nova plateia quando apresentou uma interpretação frenética de Satisfaction no Festival Pop de Monterey, em 1967.

Já a versão de Aretha Franklin, acompanhada por um piano, levou os Stones às igrejas, e a música voltou às paradas em 1968.

Satisfaction ressurgiu uma década depois, mesmo quando os Stones e muitos dos seus contemporâneos do rock clássico estavam a ser relegados a um lugar no passado por novas bandas de punk-rock.

"Sempre achei que Satisfaction é a canção de rock por excelência", afirmou certa vez Mark Mothersbaugh, vocalista do Devo. O grupo mostrou a Jagger a sua versão antes de lançá-la. "Depois de uns 30 segundos, ele saltou da cadeira e começou a dançar pela sala. Depois nos disse: 'Esta é a minha versão favorita da música!'", lembra o músico.

Gravações mais recentes conseguiram completar toda a gama de possibilidades interpretativas. A versão de Cat Power, de 2000, tornou Satisfaction um lamento acústico assombrado, com a frustração e a alienação espreitando sob sua superfície esfumaçada.

Naquele mesmo ano, Britney Spears deu à música uma nova cara, com a ajuda do produtor Rodney Jerkins. É verdade que o marketing teve o seu papel, com Spears a tentar ampliar o seu público para além dos adolescentes.

Certamente, (I Can’t Get No) Satisfaction foi originalmente vista como um ataque a uma geração mais velha. Em 1969, Jagger jurou que jamais seria apanhado a cantar a música aos 50 anos. Hoje nos seus 71, é com essa canção que ele e os Stones encerram os concertos da sua atual tourné pelos Estados Unidos.

Apesar dos Stones, Satisfaction ainda vive.

1 comentário

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.