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jornaldodiaadia

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Eternamente jovens?

Qual é o maior fator de risco para contrair doenças mortais? O tabaco, a radiação ultravioleta do sol, o sedentarismo, encher-se de açúcar? Nada disso: é o envelhecimento. Por essa razão, e porque a expectativa média de vida está a aumentar nos países ocidentais e nas potências emergentes, a Organização Mundial da Saúde (OMS) prevê que o número de pessoas que sofrem das doenças da idade —enfarte, cancro e neurodegeneração— vai dobrar nas próximas duas décadas. Que vantagem tem, então, viver cada vez mais?

A pergunta esconde uma armadilha. A expectativa média de vida, de fato, está a aumentar nos países ocidentais a uma taxa de dois anos e meio por década, 25 anos por século. Mas a principal causa disso são as melhoras progressivas no tratamento do enfarte, que continua a ser o grande busilis das sociedades desenvolvidas.

Mas há outra forma de viver mais, pelo menos em princípio: uma forma que não consiste em prolongar “o ultraje dos anos”,  a velhice, mas em adiar a sua chegada. Ou seja, abrandar o envelhecimento. É como vender um elixir no deserto —e, na verdade, ninguém sabe ainda como fazer, apesar de todo o barulho— , mas o assunto é um dos mais sérios abordados pela pesquisa biológica de vanguarda hoje em dia. É o único enfoque que será capaz de proporcionar mais anos de vida (lifespan), e também de saúde (healthspan). O único futuro sustentável.

Abrandar o envelhecimento e alongar a vida, entretanto, é um objetivo ambicioso. Requer brincar de Deus, para empregar a frase preferida dos setores críticos à genética. Porque uma coisa é a expectativa média de vida e outra muito diferente é a vida máxima que uma espécie pode alcançar. A primeira pode ser aumentada com vacinas, antibióticos e saneamento básico, principalmente ao salvar a vida das crianças. Mas a segunda é fruto da evolução e, portanto, está inscrita nos nossos genes.

Na geologia, a oxidação de um metal é uma simples função da sua exposição ao oxigênio da atmosfera e à intempérie. Na biologia, entretanto, o envelhecimento não é mera consequência da passagem do tempo. Todos os animais são feitos de proteínas, açúcares, gorduras e ácidos nucleicos e, apesar disso, as moscas morrem em seis semanas, os ratos aos quatro anos, os golfinhos aos 30, os leões aos 40, os macacos aos 50, as corujas aos 65, os humanos aos 90 —ou aos 122, se considerarmos o recorde mundial— e as tartarugas aos 200. E veja bem: uma mosca morre de velha a ponto de ser utilizada como modelo biológico para estudo do Alzheimer humano.

Estes dados simples mostram que a idade máxima de uma espécie está gravada nos seus genes. E, por mais fatalista que soe a palavra gene, essa é precisamente a grande esperança dos pesquisadores: os genes são moléculas químicas, e tanto sua atividade como seus efeitos podem ser moduladas com outras moléculas químicas, ou candidatos a fármacos. E quase todas as linhas de pesquisa convergem para identificar os tipos de fármacos mais promissores. Os alvos —os processos biológicos que causam diretamente o envelhecimento— são o metabolismo da nutrição, a atividade das mitocôndrias (as pequenas usinas energéticas de nossas células) e a autofagia, um desconcertante processo pelo qual nossas células doentes se digerem a si mesmas.

A lista de instituições públicas de pesquisa, empresas de biotecnologia e fármacos candidatos ao teste clínico é interminável, mas cabe citar os exemplos do Buck Institute, em São Francisco (EUA), que conseguiu multiplicar por cinco a expectativa de vida de um tipo de minhocas de laboratório, ou o Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas (CNIO) na Espanha, que duplicou as possibilidades de sobrevivência de ratos que envelheciam mais rápido do que o normal. Outro centro de referência é o Instituto Max Planck, na Alemanha, onde concluíram, entre outras coisas, que os genes maternos são determinantes para viver mais anos. Prolongar a vida transformou-se também numa outra ambição de Silicon Valey, tanto que a Google criou uma empresa dedicada somente a isso (a California Life Company).

Todas estas instituições confluem nesses poucos processos biológicos fundamentais. Uma característica especialmente chocante desses processos é sua coincidência quase exata com os que, conforme concluíram outras linhas de pesquisa independentes, causam o cancro, os transtornos cardiovasculares e as doenças neurodegenerativas como o Alzheimer e o Parkinson: as doenças da idade, e as principais causas de morte e sofrimento planetárias, exceto nos países que ainda não têm condições de combater infecções.

A elite científica do envelhecimento considera especialmente interessantes três estratégias para prolongar a saúde e a vida: a restrição calórica, a atividade física e certas pequenas moléculas (candidatos a fármacos) como a espermidina, a metformina, a rapamicina e o resveratrol, o componente saudável do vinho tinto. Mas não abra a garrafa ainda: a quantidade de vinho tinto que teria de beber é incompatível com a vida, e portanto não pode alongá-la. A ideia é encontrar ou sintetizar compostos que ampliem em várias ordens de magnitude os efeitos longevos do vinho e evitem seus venenos. E o mais provável é que o resultado final não cause embriaguez, nem afogue as dores. Salvo as associadas à velhice.

As instituições internacionais e os serviços de estudos dos bancos saturaram a atenção do público com suas análises prospectivas das consequências do envelhecimento da população, um fenómeno em curso em todos os países desenvolvidos devido ao aumento da idade média e da queda da natalidade. Os maiores de 65 serão uma proporção cada vez maior da população e votarão em partidos que prometerem mais aumentos na reforma às custas dos minoritários jovens que ainda estiverem a trabalhar; como os velhos gostam de adoecer, os custos da saúde vão disparar no mesmo ritmo que os planos de previdência privada.

Todas essas previsões estão fadadas ao mais estrondoso fracasso. Uma única droga que adie o envelhecimento humano, mesmo que seja numa medida modesta, bastará para jogar no caixote do papel reciclado todos esses estudos. Primeiro, porque multiplicará por 10 ou por 100 a percentagem de maiores de 65 em qualquer país. E segundo, e mais importante ainda, porque esses velhos estarão em condições de trabalhar, aprender e produzir: em vez de trazerem mais custos para a saúde pública e os seguros, vão reduzi-los de forma drástica. Os caríssimos e ineficazes tratamentos para o enfarte que hoje levam a parte dos impostos serão cada vez menos importantes.

Mas isso é o futuro, essa coisa que os economistas nunca sabem predizer. Nem os cientistas. No momento, a única estratégia promissora para alongar a vida e atrasar as doenças da idade é a restrição calórica: comer 30% menos do que pede o corpo, e com cuidado para que não falte nenhum nutriente essencial. Ou seja, passar fome 24 horas do dia durante todos os dias de sua vida. Não está provado que alonga a vida em humanos mas funciona em todo bicho vivente. Estamos dispostos a submetermo-nos a esta tortura?

Se não estiver, lembre o que disse o filósofo suíço do século XIX, Henri-Frédéric Amiel: “Envelhecer é a obra-prima da vida”. Ou o que disse Chesterton: “Vou envelhecer para tudo, para o amor, para a mentira, mas nunca envelhecerei para o assombro”. E me permitam completar a citação amputada que ofereci de Borges no início: “Converter o ultraje dos anos em música, rumor e símbolo”. Longa vida ao leitor.

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